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A psicologia explica por que dizemos “ai” quando nos machucamos, mesmo sem ninguém por perto, e como essa reação automática pode ajudar o cérebro a lidar com a dor
Dizer “ai” depois de bater o dedo não é apenas um hábito e pesquisadores encontram um efeito curioso dessa reação sobre a tolerância à dor
Bater o dedo na quina de um móvel ou encostar acidentalmente em algo quente costuma provocar uma reação quase imediata: “ai!”. Curiosamente, essa vocalização também aparece quando estamos completamente sozinhos, indicando que ela não serve apenas para avisar outras pessoas. Pesquisas sobre dor sugerem que produzir um som no momento do incômodo pode participar da própria resposta do organismo e até aumentar temporariamente a tolerância à dor.
Por que dizemos “ai” mesmo quando não existe ninguém por perto?
A dor desencadeia várias respostas rápidas antes mesmo de conseguirmos pensar cuidadosamente sobre aquilo que aconteceu. Retirar a mão, contrair o rosto, mudar a respiração e produzir algum som podem fazer parte desse conjunto de reações. A palavra específica varia conforme a língua e a cultura, mas vocalizações de dor aparecem de maneira bastante comum.
Isso ajuda a explicar por que não precisamos de uma plateia para dizer “ai”. Embora o som possa comunicar aos outros que alguma coisa aconteceu, ele também pode funcionar como uma resposta ligada à própria experiência dolorosa.

O que aconteceu quando pesquisadores testaram o efeito de dizer “ow”?
Um estudo publicado em 2015 no The Journal of Pain investigou justamente se vocalizar poderia alterar a maneira como as pessoas enfrentavam uma sensação dolorosa. Os participantes colocavam uma das mãos em água extremamente fria e permaneciam nela pelo tempo que conseguissem suportar.
Em diferentes condições, eles precisavam realizar ações específicas:
Como os grupos foram comparados
- 1Dizer “ow” enquanto sentiam a dor.
- 2Ouvir uma gravação da própria voz dizendo “ow”.
- 3Ouvir outra pessoa pronunciando a mesma palavra.
- 4Pressionar um botão durante a experiência.
- 5Permanecer sem realizar nenhuma dessas ações.
Quando os participantes pronunciavam “ow”, conseguiram manter a mão na água fria por mais tempo do que quando permaneciam passivos.
Como falar alguma coisa poderia ajudar a tolerar a dor?
Uma explicação considerada pelos pesquisadores envolve os processos motores associados à vocalização. Produzir um som não é uma atividade puramente mental: exige organizar respiração, músculos da boca, laringe e outros mecanismos envolvidos na fala.
Um detalhe reforçou essa hipótese. Apertar um botão também aumentou a tolerância à dor, enquanto simplesmente ouvir a palavra “ow”, pronunciada pela própria pessoa ou por alguém diferente, não apresentou o mesmo efeito. Isso sugere que realizar uma ação pode ser mais importante do que apenas escutar um som associado à dor.
Dizer “ai” funciona como uma espécie de analgésico natural?
Seria exagerado chegar a essa conclusão. O experimento mostrou um aumento de tolerância em uma situação controlada de dor aguda provocada pelo frio. Isso não significa que dizer “ai” elimine a dor, trate uma lesão ou tenha o mesmo efeito em todas as pessoas e em todos os tipos de desconforto.
A percepção dolorosa é influenciada por numerosos fatores:
- Intensidade e origem do estímulo;
- Atenção dedicada à sensação;
- Experiências anteriores com dor;
- Estado emocional naquele momento;
- Expectativas sobre o que está acontecendo;
- Diferenças individuais de sensibilidade e tolerância.

Por que gritar de dor também tem uma função social?
Embora possamos vocalizar quando estamos sozinhos, sons de dor também possuem evidente valor comunicativo. Um grito ou uma exclamação chama rapidamente a atenção das pessoas próximas e pode indicar que alguém se machucou antes mesmo de existir tempo para explicar o ocorrido.
Essa reação pode ser especialmente útil quando a pessoa precisa de ajuda. Expressões faciais, postura corporal e vocalizações formam um conjunto de sinais capazes de comunicar sofrimento. Ainda assim, a intensidade do som não é uma medida perfeita da intensidade da dor: pessoas diferentes expressam desconforto de maneiras muito diferentes.
O que o nosso “ai” revela sobre a maneira como o cérebro enfrenta a dor?
O comportamento mostra que experimentar dor não é apenas receber passivamente um sinal vindo de alguma parte do corpo. Quando algo dói, o organismo reage com movimentos, alterações faciais, mudanças na atenção e vocalizações. Algumas dessas respostas podem influenciar a própria forma como aquele momento é enfrentado, o que ajuda a entender por que dizer “ai” pode acontecer mesmo quando ninguém está ouvindo.
Isso não significa que exista uma palavra mágica capaz de bloquear o sofrimento. O que os experimentos sugerem é mais interessante: produzir uma vocalização pode fazer parte de uma resposta ativa à dor e, pelo menos em certas condições, aumentar nossa capacidade de tolerá-la por alguns instantes. Aquela exclamação automática depois de bater o joelho na mesa, portanto, pode ser mais do que simples hábito ou pedido de atenção.