Saúde
Sobrecarga, rotina e estímulos: 5 desafios de mães com TDAH ou autismo
Pediatra explica como características da neurodivergência podem impactar a maternidade e reforça que dificuldades não significam falta de amor ou cuidado
Falar sobre maternidade costuma envolver diversos desafios, como noites maldormidas, excesso de tarefas e a necessidade de conciliar diferentes responsabilidades. Para mulheres neurodivergentes, porém, algumas dessas situações podem ser ainda mais intensas, pois características relacionadas ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem influenciar a maneira como elas lidam com estímulos, organização, rotina e demandas emocionais.
Segundo a pediatra Marli Rio, que atua há mais de 30 anos na área, ainda existe pouca discussão sobre mulheres que são mães e também são neurodivergentes. “Hoje se fala bastante sobre mães de crianças neurodivergentes, mas quase ninguém fala sobre a mulher que é mãe e também é neurodivergente”, observa.
A seguir, a especialista explica alguns desafios que podem fazer parte da experiência dessas mulheres.
1. Sobrecarga com estímulos sensoriais
Algumas mulheres autistas apresentam hipersensibilidade a sons, toques, cheiros ou outras sensações. Na maternidade, a exposição frequente a choros, gritos e contato físico pode provocar uma sobrecarga difícil de administrar.
A amamentação, por exemplo, pode ser desconfortável para mulheres que apresentam hipersensibilidade ao toque. Da mesma forma, o choro frequente do bebê pode ser especialmente intenso para quem possui sensibilidade auditiva. “Isso não significa rejeição ou falta de amor. Significa que o organismo daquela mulher percebe e processa esses estímulos de uma maneira diferente”, explica Marli Rio.
2. Dificuldade para organizar a rotina
A maternidade envolve uma série de tarefas que precisam ser lembradas e realizadas diariamente: horários de alimentação, consultas, medicamentos, compromissos, atividades escolares, tarefas domésticas, entre outras.
Para uma mulher com TDAH, administrar tantas demandas simultaneamente pode ser particularmente difícil. Problemas relacionados à atenção, memória, planejamento e gerenciamento do tempo podem aumentar a sensação de sobrecarga.
3. Sensação de estar sempre sobrecarregada
Quando várias demandas acontecem ao mesmo tempo, a mulher pode ter dificuldade para definir prioridades e concluir uma atividade antes de iniciar outra. Isso pode gerar a sensação de que existe sempre alguma coisa pendente.
“Muitas acabam sendo julgadas como desorganizadas, distraídas, impacientes ou incapazes, quando, na verdade, estão sobrecarregadas e precisam de compreensão e estratégias adequadas”, afirma a pediatra.

4. Culpa por não corresponder ao padrão de maternidade
A comparação com outras mães também pode pesar. Quando uma mulher percebe que determinadas tarefas que parecem simples para outras pessoas são mais difíceis para ela, pode interpretar essas dificuldades como uma falha pessoal. Em alguns casos, isso pode contribuir para sentimentos de culpa e para a ideia de que ela seria uma mãe “menos capaz”.
Para a pediatra Marli Rio, é importante separar as dificuldades relacionadas ao funcionamento neurodivergente da capacidade de amar e cuidar dos filhos.
5. Descobrir a neurodivergência somente na vida adulta
Nem sempre o TDAH ou o autismo é identificado durante a infância. Algumas mulheres recebem o diagnóstico apenas na idade adulta, inclusive depois de já terem se tornado mães. Até esse momento, podem passar anos tentando compreender por que determinadas situações são mais difíceis para elas do que parecem ser para outras pessoas.
“Quando o diagnóstico chega, ele pode representar um grande alívio, porque permite que essa mulher compreenda e ressignifique tudo o que viveu. Ela percebe que nunca amou menos e nunca foi uma mãe inferior. Apenas viveu a maternidade com um funcionamento diferente, muitas vezes sem compreensão, sem estratégias adequadas e sem o apoio de que precisava”, diz a médica.
Um olhar mais acolhedor para essas mães
Para a pediatra, reconhecer a existência dessas mulheres é um passo importante para tornar a maternidade mais acolhedora. Em vez de interpretar desorganização, necessidade de momentos de silêncio ou dificuldade com determinados estímulos como falta de interesse pelos filhos, é necessário considerar que cada pessoa vivencia a maternidade de uma maneira. “O diagnóstico não muda a mãe que ela foi. Muda a maneira como ela compreende tudo o que viveu”, conclui Marli Rio.
Por Beatriz Monteiro Felicio