Casados por 70 anos, Kenneth e Helen nunca passavam uma noite separados e morreram com 15 horas de diferença, de mãos dadas até o fim, numa história que comoveu os Estados Unidos - Super Rádio Tupi
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Casados por 70 anos, Kenneth e Helen nunca passavam uma noite separados e morreram com 15 horas de diferença, de mãos dadas até o fim, numa história que comoveu os Estados Unidos

Quando marido e mulher morrem com horas de diferença, cada morte abre uma herança, e o inventário dos dois pode correr junto se for aberto em até dois meses

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Kenneth e Helen Felumlee morreram com 15 horas de diferença após 70 anos de casamento
Kenneth e Helen Felumlee morreram com 15 horas de diferença após 70 anos de casamento - Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Passava das dez da noite quando Rosângela, professora aposentada de 61 anos, ouviu o pai chamar do quarto da casa da família em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Dalva, a mãe, de 88 anos, tinha parado de respirar deitada ao lado de Sebastião, de 90, com quem dividia a mesma cama havia 66 anos. Ele segurava a mão dela e não quis soltar até a chegada da equipe do Samu.

Duas despedidas em menos de um dia

Sebastião não dormiu naquela noite. De manhã, pediu um café que não chegou a tomar, e os filhos o levaram ao hospital municipal com a pressão baixa. Às 13h20 do dia seguinte, pouco mais de 15 horas depois da mulher, ele também morreu, e as duas certidões de óbito saíram do cartório com a data e o horário de cada morte.

No velório, um primo mostrou no celular uma história que tinha comovido os Estados Unidos. Kenneth Felumlee e Helen Felumlee, de Nashport, em Ohio, estavam casados havia 70 anos quando morreram em abril de 2014, ela aos 92 e ele aos 91, com 15 horas de diferença. Os filhos contaram que o casal tomava café de mãos dadas e, numa viagem de barco, preferiu dividir um beliche estreito a passar a noite separado.

Por que a família achou que bastava um inventário só?

Na semana seguinte, Rosângela e o irmão, Wagner, motorista de 58 anos, foram a um cartório de notas do Centro de Nova Iguaçu com a escritura da casa onde os pais moravam desde 1971. A ideia era resolver tudo de uma vez, como se o casal tivesse partido junto. O primo do velório tinha garantido que, morrendo no mesmo dia, marido e mulher eram tratados pela lei como uma pessoa só.

Quando a ordem das mortes é conhecida, cada falecimento abre uma herança distinta
Quando a ordem das mortes é conhecida, cada falecimento abre uma herança distinta – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A escrevente ouviu a história e pediu as duas certidões. Explicou que, como os horários estavam registrados, havia ali duas heranças, uma aberta às 22h de terça e outra às 13h20 de quarta, e que a ordem pesava na divisão. Sugeriu que os irmãos procurassem um advogado ou a Defensoria Pública, porque sem esse acompanhamento o cartório não poderia fazer a escritura.

Mal-entendidos sobre a casa dos pais costumam aparecer justamente na abertura do inventário, como mostra outro caso contado aqui no site.

O que o Código Civil diz quando o casal morre quase junto

Existe, sim, uma regra parecida com a que o primo tinha em mente, mas ela vale para outra situação. O artigo 8º do Código Civil (Lei 10.406/2002) diz que, quando duas pessoas morrem na mesma ocasião e não dá para saber quem morreu primeiro, a lei presume que as mortes foram simultâneas. É a chamada comoriência, comum em acidentes, e nesse caso um não herda do outro.

Com Dalva e Sebastião, a ordem estava no papel. Pelo artigo 1.784, a herança passa aos herdeiros no momento da morte, então a de Dalva foi aberta primeiro, com o marido ainda vivo. Como o casamento era em comunhão universal e havia filhos, ele ficou com a meação, a metade que já era dele, e a parte dela foi para os dois filhos, conforme a ordem do artigo 1.829.

Prazos e papéis que a família precisa reunir

O Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) dá à família ferramentas e também prazos. O artigo 672 permite juntar num só procedimento as heranças deixadas pelos dois cônjuges, e o artigo 610 autoriza a via do cartório quando todos os herdeiros são maiores, capazes e estão de acordo. Na prática, os irmãos precisam se organizar assim:

  • prazo de 2 meses a partir da morte para abrir o inventário, com 12 meses para concluir, prorrogáveis pelo juiz;
  • certidões de óbito dos dois, com data e horário, e a certidão de casamento, que mostra o regime de bens;
  • documentos pessoais dos herdeiros e a certidão atualizada do imóvel;
  • comprovantes de saldos, contas e dívidas deixados por cada um;
  • assistência de advogado ou defensor público, exigida para a escritura em cartório.

Perder o prazo não tira o direito à herança, mas o atraso pode gerar multa sobre o imposto estadual de transmissão, o ITCMD, conforme a lei do estado. Como são duas transmissões, cada herança costuma ter o seu próprio cálculo de imposto, mesmo quando os inventários correm juntos. Por isso a hora anotada em cada certidão entra na conta desde o primeiro atendimento.

As duas heranças podem tramitar no mesmo procedimento, com assistência de advogado ou defensor público
As duas heranças podem tramitar no mesmo procedimento, com assistência de advogado ou defensor público – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

A quem recorrer quando não há dinheiro para advogado

Quem não pode pagar advogado tem direito a atendimento gratuito na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, que atua tanto no inventário judicial quanto na assistência à escritura em cartório. O primeiro contato pode ser feito pelo telefone 129, da Central de Relacionamento com o Cidadão, que indica o núcleo mais próximo. Convém levar comprovante de renda e os documentos da herança já separados.

Quando há testamento ou herdeiro incapaz, o caminho obrigatório é a Justiça, e a Defensoria também acompanha esses casos. Os núcleos de prática jurídica das universidades oferecem orientação sem custo para quem mora perto de um campus. Antes de qualquer passo, a certidão de matrícula do imóvel, emitida pelo cartório de registro de imóveis da região, mostra em nome de quem a casa realmente está.

Uma casa, duas heranças e um processo só

Com seis semanas do prazo já corridas, Rosângela e Wagner foram atendidos pela Defensoria em Nova Iguaçu e saíram com o pedido de inventário cumulado dos pais, sem pagar honorários. A partilha ainda depende do cálculo do imposto, mas os irmãos já sabem que a herança de Dalva é resolvida primeiro e a de Sebastião logo depois, no mesmo procedimento.

Para quem perdeu pai e mãe com poucas horas de diferença, a orientação prática é conferir o horário em cada certidão de óbito, buscar a certidão de casamento para saber o regime de bens e procurar a Defensoria antes de o prazo vencer. Como na história de Kenneth e Helen, o casal pode partir quase junto, mas para a lei cada morte abre a sua própria herança.

Kenneth e Helen existiram de verdade, e a despedida deles foi noticiada pela imprensa americana em 2014. Rosângela, Wagner, Dalva e Sebastião, por outro lado, foram inventados a partir de situações que se repetem nos cartórios e na Defensoria quando um casal morre com poucas horas de diferença.

Para quem cuida de pais idosos, há benefícios que pouca gente pede, como a gratuidade em viagens interestaduais.